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Educação Integral

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Publicada: 15/07/2015

Jovens Urbanos é apresentado em reunião da ONU!

Fonte: Portal Educação & Participação

 

No último mês, a Assembleia Geral das Nações Unidas realizou o evento Dividendo demográfico e emprego de jovens (em inglês, High-Level Event on the Demographic Dividend and Youth Employment), em Nova York. Durante o encontro, Patricia Mota Guedes, gerente de educação da Fundação Itaú Social, apresentou a experiência do Programa Jovens Urbanos, cuja coordenação técnica é do Cenpec, durante o painel “Como aproveitar o bônus demográfico” (“How to harness the demographic dividend”, em inglês).

 

Confira abaixo a entrevista com Patrícia. Ela conta como foi o evento e aborda as contribuições do Jovens Urbanos para o debate sobre educação integral, considerada estratégica para reduzir desigualdades.

 

Educação&Participação: De que forma se deu o convite para a Fundação Itaú Social apresentar o Programa Jovens Urbanos nesse painel na ONU?

Patricia Mota Guedes: Essa iniciativa teve como foco discutir o bônus demográfico e a empregabilidade dos jovens, um dos temas do Fórum Político de Alto Nível sobre Desenvolvimento Sustentável. O UNFPA queria propiciar um painel com universidades, investidores sociais e fundações empresariais de diferentes países com relatos de estratégias, práticas e experiências exitosas de formação ampla e integral de jovens que pudessem contribuir para o investimento nessa empregabilidade por parte dos países que ainda têm o bônus demográfico, a fim de que produzam desenvolvimento econômico. Do Brasil, além da Fundação Itaú Social, que representou a sociedade civil, compareceu também a delegação com Gabriel Medina, secretário nacional de Juventude e que, até 2014, esteve na Coordenaria de Juventude do município de São Paulo, quando foi parceiro nosso nas iniciativas do Jovens Urbanos.

 

O que é bônus demográfico?

Concebido, segundo a ONU, “em um momento em que o mundo estava se concentrando na interação entre as mudanças de estrutura populacional, crescimento econômico e desenvolvimento das Nações Unidas”, o conceito da contribuição demográfica para acelerar o crescimento econômico ficou conhecido como bônus ou dividendo demográfico e surgiu na sequência da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo, no ano de 1994. O bônus demográfico se faz presente quando há uma população economicamente ativa maior que a população de aposentados e que a população de crianças, o que constitui uma oportunidade para alavancar o desenvolvimento econômico de um país, desde que este invista nas populações mais jovens.

 

E&P: Qual a importância de apresentar a experiência do Jovens Urbanos no evento?

P.M.G.: O Programa Jovens Urbanos tem um conjunto de avaliações de impacto que apontam para o aumento da renda e da escolaridade dos jovens participantes. Há também o fato de ser uma iniciativa que trabalha a formação dos jovens de maneira ampla, incluindo a circulação no território, o que fortalece a ideia de que a educação também acontece fora da escola. Essas duas características atraíram a atenção do UNFPA, além de um terceiro foco, que é atuar em áreas de vulnerabilidade mais alta, uma realidade presente em regiões urbanas de muitos países, como na América Latina, por exemplo.

 

“Fomos procurados pela equipe técnica do Fundo de População das Nações Unidas, que quis entender, mais detalhadamente, os resultados das avaliações de impacto do Jovens Urbanos”

 

E&P: Após a apresentação, houve repercussão entre os membros do painel?

P.M.G.: Sim. Fomos procurados pela equipe técnica do UFNPA, que quis entender, mais detalhadamente, os resultados das avaliações de impacto do Jovens Urbanos, que, por sua vez, destacam o que acontece “na ponta” de uma iniciativa assim. Foi uma reunião técnica mais ampliada, com alguns desenvolvimentos possíveis exatamente na área de avaliação de impacto e de seus desafios: identificar e definir indicadores que sejam relevantes e mensuráveis, a fim de utilizá-los no aprimoramento de programas.

 

“A educação integral pressupõe uma ampliação de repertório e o reconhecimento dos diferentes saberes presentes na escola, na família, na comunidade, que são fundamentais para o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, tornando-se um eixo fundamental na ampliação de estratégias e oportunidades para eles”

 

E&P: O Jovens Urbanos é um programa que promove a educação integral – no caso, para a juventude. Qual a importância de defender a educação integral no Brasil hoje?

P.M.G: Nosso país é marcado por desigualdades, não apenas entre diferentes regiões e municípios, mas dentro de um mesmo município, entre escolas e mesmo dentro de uma mesma escola, entre alunos e turnos. A educação integral é uma concepção de educação estratégica para a redução dessas desigualdades.

Ela pressupõe uma ampliação de repertório e o reconhecimento dos diferentes saberes presentes na escola, na família, na comunidade, que são fundamentais para o desenvolvimento de crianças, adolescentes e jovens, tornando-se um eixo fundamental na ampliação de estratégias e oportunidades para eles.

 

“Percebemos que a ampliação do repertório sociocultural do Programa Jovens Urbanos é um divisor de águas para os jovens participantes, no sentido de participação na vida pública, preparação para o mercado de trabalho etc.”

 

É preciso dizer que a educação integral não envolve apenas uma ampliação de tempo, mas também de tipos de aprendizagem e de espaços. Quando pensamos no jovem e na experiência do Programa Jovens Urbanos, observamos que essa concepção está muito presente. Não é raro, no decurso do Programa, encontrar jovens que, por exemplo, nunca tiveram a experiência de visitar certas regiões da cidade, de acessar determinados equipamentos culturais – e vemos como faz diferença, para eles, ter a chance de experimentar linguagens e vivências variadas, o que permite que atestem, conheçam melhor ou mesmo ampliem seus interesses.

Percebemos que a ampliação do repertório sociocultural do Programa Jovens Urbanos é um divisor de águas para os jovens participantes, no sentido de participação na vida pública, preparação para o mercado de trabalho etc.

Pais de classes mais altas, além de manterem seus filhos na escola, promovem uma série de iniciativas que vão marcar positivamente seus jovens e também torná-los mais competitivos no mercado de trabalho – cursos de inglês, viagens, cinema, teatro, acesso a linguagens multimidiáticas, a livros etc.

Reduzimos essas desigualdades, que muitas vezes ficam invisíveis – e mostramos que essa ampliação de repertório não ocorre apenas via escola, mas também por meio de outras experiências que são igualmente formativas e fazem diferença para os jovens, evidenciando que precisamos garanti-las para todos eles.

 

E&P: Quais os desafios para implementar a educação integral atualmente no Brasil?

P.M.G: Antes de falarmos dos desafios, é preciso destacar que temos tido muitos avanços: a educação integral hoje está na pauta do debate público, está presente em uma das metas do Plano Nacional de Educação (PNE).

Por conta disso, municípios e estados intensificaram seus debates específicos sobre educação integral e sobre como dialogar com essa meta. Há, portanto, um certo amadurecimento na discussão.

Na implementação, porém, existem áreas muito desafiadoras, e, como o Brasil é tão abrangente e diversificado, vamos encontrar experiências de municípios e estados que já avançaram bastante e outros que ainda têm muito a fazer – mas não quer dizer que não encontremos avanços e experiências exitosas.

 

Nesse contexto, entendo que os principais desafios são:

1- Infraestrutura e financiamento: aí, não apenas pensando em escolas de tempo integral. Independentemente da modalidade de educação integral, há questões de investimento que envolvem alocação de professores, o aumento de carga horária, a qualidade do espaço e da infraestrutura física – que, se inadequada, pode dificultar a ampliação e a oferta de educação integral –, apesar de termos iniciativas bastante criativas nesse sentido;

 

2- Formação: uma coisa é o profissional que entende a teoria e o conceito de educação integral; outra coisa é ele transpor o conceito para sua prática, seja esse profissional um educador social, um professor, um diretor de escola, um gestor público. Há uma forte necessidade de formação continuada para a oferta de educação integral, e, novamente, aqui encontramos redes que muito avançaram e outras que têm grandes desafios;

 

3- Mobilização da sociedade civil e engajamento da família e da comunidade: temos experiências de educação integral que não saíram do papel ou não sobrevivem a um ciclo como um todo, por não contarem com o apoio das famílias e da comunidade. Em compensação, temos políticas de educação integral que avançaram e têm atravessado diferentes governos e gestões exatamente devido a esse engajamento.

 

4- Trabalho intersetorial: não é apenas a Secretaria de Educação que precisa acordar para a oferta de educação integral. O tema é transversal e envolve as secretarias de Desenvolvimento, Assistência Social, Cultura, Saúde e outras mais, como as que lidam com infraestrutura, planejamento e mesmo a de Segurança Pública, no sentido de garantir a segurança de crianças, adolescentes e jovens que circulam no território, dando conforto e segurança a suas famílias.

 

A intersetorialidade é algo que leva tempo, é um esforço a ser capitaneado pelo prefeito, pelo governador e que sabemos que, nos municípios e estados onde ocorre, rende muito mais – e a qualidade da educação integral também é mais interessante.

Isso confere com o conceito de cidade educadora: há toda uma cidade preparada para a oferta de oportunidades de desenvolvimento para a criança, o adolescente e o jovem, que poderão desfrutar dessas oportunidades em sua amplitude, sem que essa experiência seja reduzida pela vinculação da oferta a esta ou àquela secretaria.

 

> Assista aqui ao vídeo com a participação de Patricia Guedes na ONU e a apresentação do Programa Jovens Urbanos (a partir de 24 minutos, em inglês);

> Confira o debate virtual “Espaços de aprendizagem na educação integral”. Mediado por Patricia Guedes e com participação de Grace Pereira e Beatriz Goulart, o evento discutiu a ampliação de espaços na educação integral e iniciativas baseadas no conceito de cidade educadora;

 

 

Sobre a entrevistada

Graduada em Ciências Políticas e em Alemão pela Universidade do Arizona e com mestrado em Administração Pública pela Universidade de Massachusetts e em Políticas Públicas pela Universidade de Princeton, Patricia Mota Guedes coordenou programas de educação e saúde com foco em crianças e adolescentes pelo governo do Estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Desde 2001, atua no Brasil como pesquisadora e gestora de projetos educacionais e atualmente é gerente de Educação da Fundação Itaú Social.



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