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Cenpec entrevista a equipe do Impaes

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Publicada: 14/10/2010

Na entrevista, é discutida a importância da arte na formação dos indivíduos e nos currículos escolares

Fundado em abril de 2004 pela artista plástica que lhe dá nome, o Instituto Minidi Pedroso de Arte e Educação Social (Impaes) foi criado com o objetivo de fomentar e contribuir com iniciativas que tenham como foco a formação de arte educadores. Desde 2005, o Cenpec é parceiro do Instituto, realizando assessoria técnica dentro do Programa Desafio Impaes.

 

Em entrevista ao Portal Cenpec, a fundadora do Instituto e a diretora da instituição, Maria Cristina Pitelli, falam sobre a importância da arte na formação do indivíduo, sobre o conceito de ensino de arte que norteia as ações e fazem uma avaliação do status ocupado pela arte dentro do currículo.

 

Qual concepção do ensino de arte norteia o trabalho da instituição? 


Minidi: Basicamente o objetivo do Impaes é levar pra quem não tem acesso a mesma qualidade do ensino de arte que as boas escolas particulares oferecem, qualidade no conceito contemporâneo mesmo, de se libertar do aprisionamento da arte tradicional, do desenho, da pintura... Claro que todos esses elementros entram também numa formação, mas o objetivo é exatamente esse: levar um conceito bem contemporâneo, com a utilização de todos os recursos possíveis, se libertando da prisão do estabelecido na arte na escola, como acontece muito em escolas municipais e estaduais e ONGs que trabalham com crianças e recebem apoio da prefeitura e dão como atividade papéis mimeografados para colorir. Essa visão de passatempo, de preencher o espaço com uma cor, sem a criatividade. O nosso foco é romper barreiras e focar na criatividade, na liberdade de criação.

 

De que modo a arte contribui na formação do indivíduo, no desenvolvimento humano? 


Minidi: Na nossa opinião, a arte bem dada é importantíssima para a autoestima da pessoa. Ela contribui muito para o desenvolvimento e para vida da pessoa em geral, porque  o artista, o indivíduo que tem uma ligação com a arte acaba descobrindo pela criatividade que existem muitos caminhos na vida. Então, contribui muito para que a pessoa encontre soluções para vida, para a profissão, pro ensino no geral, para outras matérias oferecidas na escola. E para ela se valorizar também, porque ela acaba fazendo trabalhos  em se descobre. A gente vê muito nos cursos de formação que visitamos o depoimento dos participantes - que são educadores de ONGs e de escolas –  como pra eles a arte foi importante, porque abriu horizontes, um caminho novo. Eles se descobrem um individuo que eles não imaginam, com tanta potencialidade. Então,  eu acho que arte tem esse dom. Não é um  instrumento, mas uma ferramenta que abre a cabeça do individuo.

 

Maria Cristina: Uma coisa importante é a arte como forma de expressão na medida em que o individuo desenvolve essa forma especial, ele desenvolve outras formas de expressão na vida. E quem se expressa bem, vive melhor, porque consegue falar melhor dos seus desejos, das suas emoções, das suas necessidades, dos seus anseios. Então, o desenvolvimento da arte  como meio de expressão ajuda o indivíduo a crescer de modo geral. Uma coisa que eu acho importante dizer é que todos os projetos patrocinados pelo Impaes são projetos de capacitação de educadores  que trabalham no ensino das artes, tanto no ensino formal, que são educadores da rede pública municipal e de alguns municípios do entorno de São Paulo ou da rede estadual, ou educadores sociais de organizações não governamentais que desenvolvem os projetos patrocinados pelo Impaes. Esses educadores são os nossos alunos, que fazem os cursos  produzidos por nós, voltados para a capacitação do arte educador. A partir  daí, eles vão para o seu meio, seja uma escola pública, ou uma organização não governamental  das mais variadas regiões de São Paulo  e da Grande são Paulo, desenvolver o projeto aplicar tudo aquilo que aprenderam no curso.

 

Qual é o papel da arte educador nesse processo do conhecimento, criação e reflexão sobre arte?  

 

Minidi: Ele é fundamental, é uma pessoa que precisa saber ensinar a construção disso; passar para o público dele, seja a criança ou o adolescente ou mesmo o adulto, como vivenciar isso. Ele é um condutor de fazer com que o outro vivencie isso. É algo que só dá para aprender se você vivenciar, experienciar. Não adianta querer passar como teoria. Não tem jeito. Eu acho que o bom educador de arte leva o aluno a mergulhar nisso e a construir, porque é um processo de construção mesmo.

 

Existem elementos que vocês consideram essenciais na formação desses educadores? 

 

Minidi: Mais do que ter uma educação formal, a pessoa tem que ser solta. Para ser criativo, não se pode ter medo e a arte ajuda muito nesse sentido, de libertar das amarras, porque é preciso coragem para ser criativo. E é uma via de mão dupla porque tendo coragem de ser criativo você recebe um retorno que te dá muita força, muito poder. Você descobre todo o seu potencial. Então, o professor tem que ser destemido mesmo e conseguir passar isso para o aluno, de fugir do temor de errar, de não agradar, o temor da aprovação. Isso é importante passar quando se é professor, educador. A pessoa não vence o medo porque é corajosa, mas porque arranjou coragem para vencer o medo.

 

E é uma relação dialógica entre o educador e o público. 

 

Minidi: É uma coisa de vínculo, de conectar. O educador, sendo criativo, consegue a conexão com o aluno, com o público. Às vezes, em uma palestra de 2 horas, com um bom educador, que seja destemido e tenha uma capacidade criativa boa, ele acaba tendo uma capacidade de comunicação boa. Como a Maria Cristina estava falando, isso mexe com toda a personalidade da pessoa, ela se torna corajosa para tudo na vida: para escrever, para falar e não só para se exprimir artisticamente.

 

De que modo a arte pode funcionar com um instrumento de inclusão, transformação social? 

 

Maria Cristina: Ela favorece o desenvolvimento do indivíduo, a construção e melhora da autoestima. A pessoa que consegue se expressar bem, de uma forma mais solta, mais destemida, consegue se dar bem no mundo, achar uma forma adequada de se relacionar com as pessoas e, consequentemente, de se incluir nas situações que aparecerem na vida.

 

Na avaliação de vocês, vem havendo uma evolução no ensino de arte ou ela ainda continua sendo uma disciplina secundária dentro do currículo escolar? 

 

Maria Cristina: A gente acredita que nas escolas públicas evoluiu pouco; nas escolas particulares é um caso à parte, porque nessas os professores vão atrás, pesquisam e se a direção escola tiver a cabeça aberta ela vai ter um excelente ensino de arte. A rotina do ensino de arte nas escolas da prefeitura, do Estado ainda está um pouco para trás. Tanto que quando chega uma formação para esses professores, como a do projeto em Embu das Artes, eles vão com maior sede para descobrir coisas novas, porque tira a passividade. Eu acho que tem muita passividade em creche, em abrigo, ainda existe muito aquela prática de usar a arte como aquela hora do descanso.

 

Maria Cristina: Tem muita passividade, porque tem muita desinformação. As pessoas não se dão conta do que isso pode contribuir para o crescimento do indivíduo. Temos projetos em Crecas, abrigos, em escolas municipais, em várias ONGs. Todos esses professores que estão fazendo esse cursos oferecidos pelos nossos projetos eles vêm com muita sede ao pote, porque vêm buscar aquilo que eles sentem falta lá. A maioria deles está pouco preparada para dar esse curso, pouco instrumentada: não tem material, não tem orientação. O nosso objetivo é exatamente tentar suprir um pouco isso com esses cursos de capacitação de arte educadores.

 

Como a arte tem esse espaço do exercício da criatividade, da liberdade, ela adquire uma relevância maior no contexto educação não formal?

 

Minidi: Pode ser... Porque aí você tem um espaço menos comprometido com o currículo, mas é um grande erro, porque aí as crianças precisam sair da escola pra ir a um lugar em aprendem arte, quando na verdade a arte deveria estar inserida dentro do currículo, sendo valorizada tanto como as outras matérias. O que acontece é que acabam pegando um pedaço da aula de arte para fazer uma recuperação, por exemplo... Porque a sociedade cobra isso. Então é uma coisa de conceito mesmo, que tem que ser muito trabalhada para mudar. Tem muitos países no mundo nos onde a arte vem em primeiro lugar na escola formal e existem muitas linhas de educação onde a arte é a base da escolaridade. Mas no Brasil ainda não é não. Ainda tem aquele conceito de aprender só português, matemática, geografia, história, que são os conceitos mais antigos de saber.

 

Talvez com essa disseminação maior da educação integral a arte venha a ganhar maior status.

 

Minidi: Eu acredito que sim. Acho que começou um movimento muito tênue, mas que já se iniciou esse movimento de formação integral do individuo, relacionada não só às artes visuais, mas a outras atividades que são da arte e levam a criança a se libertar, a se conhecer melhor. A arte também é introduzir o circo na aula de educação física. As crianças vão adorar e certamente vai ser mais lúdico. Essa valorização da arte no currículo também é forma de valorização da profissão do artista plástico, do artista do circo, do artista em geral.

 

E também essa idéia de que pela arte se trabalham outras dimensões, não apenas o cognitivo.

 

Minidi: Com certeza. É que as pessoas se perdem, se aprisionam no saber formal, no cognitivo. Uma pessoa pode ser muito inteligente e culta e não saber datas de acontecimentos da História do Brasil ou universal.



Fabiana Hiromi
Comentários(1)

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